Antes de qualquer coisa preciso deixar algo bem claro: eu sou uma pessoa feliz comigo! Só que isso não impede, absolutamente, que eu tenha fases infelizes na minha vida, que eu fique triste, que eu me sinta desvalorizada, incompreendida, desolada e enfraquecida, que eu acredite que o mundo não tem solução nem cura.
Conheço uma pessoa que se referiu a um ex-namorado chamando-o de louco porque ele tinha dito que estava tão deprimido e infeliz que tinha pensado em suicídio. E ela não podia acreditar que uma pessoa dita “sã” ou “normal” poderia pensar em suicídio. Isso aconteceu há muitos anos e até hoje não esqueço, até porque coincidentemente me disseram isso outra vez há poucos dias ao telefone. Pois o que não consigo entender é como que alguém dito “são” ou “normal” pode jamais ter sentido suficiente tristeza, incompreensão ou inadequação, que nunca tenha chegado a pensar em matar-se. Alguém que nunca tenha se comovido com a situação de miséria de outras pessoas, ou visto animais e crianças abandonados, ou simplesmente se indignado com pessoas que continuam tratando o próximo ou o planeta como lixo e chegado à conclusão de que não vale a pena continuar lutando. Será que nem na adolescência?
Eu já tive esse pensamento várias vezes, quase todas na adolescência, mas alguns também no decorrer da vida adulta. Na medida em que fui “crescendo”, as eventuais crises de tristeza ou depressão passaram a desencadear um desejo de “deixar-se morrer” o que é diferente, óbvio, de suicidar-se. Apenas pelo desânimo não se tem vontade de fazer nada, não se quer comer ou beber, não se quer ler ou ver televisão, nem ao menos tomar banho ou levantar da cama. A única coisa que faz sentido é ficar deitado, na penumbra, dormindo indefinidamente, preferencialmente sem ter sonhos. É uma espécie de “morte em vida”. E talvez até por isso mesmo acabe cumprindo o seu papel. Acabamos, de fato, desligando-nos da vida por um período, o que nos dá tempo suficiente para descansar o corpo e principalmente a mente e a psique em relação aos maus momentos que nos têm ocorrido.
Difícil, mesmo, é retomar as forças e literalmente voltar à vida. Especialmente se não encontramos, nesse período de hibernação de ânimo, o apoio de alguém capaz de ser apenas “o ombro” onde repousar nossa cabeça, o colo onde afogarmos nosso pranto, a mão a nos afagar o cabelo e o rosto, num mudo mas amoroso sistema de suporte capaz de nos tirar do pranto e proporcionar paz. Isso certamente nos favorece e restabelece com maior rapidez e energia. Sem isso, o retorno é cada vez mais lento e penoso. De onde se pode concluir que, mais uma vez, o caminho da cura e da salvação é a amizade e o amor. E, não se iluda! Não estou falando especificamente de pessoas. Um animal, uma planta, um dia bonito, uma chuva mansa ou uma tempestade repentina pode fazer com que saiamos do estado de prostação. Pode ser, simplesmente, a crença de que um ser superior te ama e te dá esse amparo. É o suficiente para que se consiga sair do fundo do poço.
E, por mais estranho que outras pessoas possam achar, essas fases são importantes para o nosso autoconhecimento, e, mais ainda, para que cresça em nós o sentimento de solidariedade e amor ao próximo, a compreensão da dor do outro, e a revisão de conceitos pessoais e pontos de vista que herdamos ao longo da nossa história e formação. Somo capazes de nos reinventar e sermos ainda melhores do que éramos, como forma de compensar a dor e dar a ela um valor real.
Aos amigos e amigas do Mulher ao Volante ofereço mais este renascimento. Espero que destas cinzas seja possível trazer clareza de raciocínio e de exposição de idéias, e que, de alguma forma, possa contribuir com alguém em algum lugar.
Excelente artigo.
".