Falta pouco mais de um mês para a etapa de abertura da 61ª temporada de
Fórmula-1, marcada para 14 de março, no Bahrein. E a grande expectativa do
fã brasileiro de esporte à propulsão de motor, claro, é ver um de seus
compatriotas das pistas conquistar o título da categoria. O último
patrício a faturar tal caneco foi Ayrton Senna, em 1991. Aliás, se fosse
uma pessoa, essa ausência de títulos já teria atingido a maioridade penal.
Teria o dever de votar, poderia garantir habilitação para dirigir. Estaria
na busca por vaga em curso superior de alguma faculdade pública.
Mas, se membros da imprensa segmentada em automobilismo e torcedores do
Brasil se aborrecem com esse "adolescente", pense então como se tivessem
de aguentar um tabu como o dos italianos na Fórmula-1. O último Mundial de
Pilotos conquistado por um representante do simpático país europeu ocorreu
em 1953, com Alberto Ascari. Fosse uma pessoa, essa ausência de títulos já
seria um senhor prestes a completar 57 anos. Estaria cansado de encarar o
trânsito de São Paulo e um bocado incrédulo com a política tupiniquim.
Poderia até estar aposentado. Mas não parado. Afinal, teria de trabalhar
para reforçar um benefício tão pequeno, que parece mais um malefício.
Contudo, os italianos não ligam muito para esse jejum. Por lá, quem chama
a atenção é uma sessentona enxuta. E não é a Sophia Loren - até porque
essa já passou dos 70. Falo da Scuderia Ferrari. "A grande verdade é que,
na Itália, tanto os torcedores quanto os jornalistas estão mais
preocupados com a Ferrari", disparou Jarno Trulli em uma entrevista à
revista Racing, publicada em abril de 2002, "Por esse motivo, não tenho
tanto problema com pressão".
Um dos episódios que deixam mais evidente a "hierarquia" mencionada pelo
piloto, que disputará a temporada 2010 de Fórmula-1 pela equipe Lotus,
aconteceu no Grande Prêmio de San Marino de 1983. O francês Patrick
Tambay, da Ferrari, e o piloto da casa, Riccardo Patrese, da Brabham,
protagonizam uma bela disputa pela primeira posição da corrida. Seis
voltas antes da quadriculada, Patrese conseguiu a ultrapassagem sobre o
ferrarista. No entanto, pouco depois, passou do ponto na curva Acqua
Minerali. E bateu.
Logo que Tambay reassumiu a liderança, o que se viu nas arquibancadas foi
uma série de comemorações da tiffosi, digna dos festejos pelos gols de
Paolo Rossi na vitoriosa campanha da seleção italiana na Copa do Mundo,
disputada no ano anterior, na Espanha. Patrese, que admitiu o erro, disse
só ter percebido a reação da torcida quando assistiu a uma gravação da
corrida, na noite daquele domingo.
Sem dúvidas, uma situação estranha. Especialmente quando adaptamos tal
situação a um cenário além do território italiano. Seria como se
brasileiros, fãs da equipe Fittipaldi, vibrassem após um dos carros do
time, pilotado pelo finlandês Keke Rosberg, assumisse a liderança de uma
prova no Brasil por conta de um abandono de Nelson Piquet. Ou se amantes
ingleses da McLaren festejassem algum deslize do conterrâneo Nigel
Mansell, que favorecesse, por exemplo, a Ayrton Senna, num GP da
Inglaterra.
Algo estranho. Mas que dá uma noção da força desse fenômeno chamado
Ferrari. Um fenômeno sexagenário.